RESUMO:
O propósito deste trabalho é entender como a Gestalt-terapia pode contribuir enquanto instrumento científico na assistência psicológica a familiares enlutados por suicídio de um de
seus integrantes. Buscamos como objetivos: (I) discorrer acerca do fenômeno da morte e do
suicídio apontando estigmas, tabus e preconceitos na cultura ocidental; (II) compreender o
processo de luto familiar em casos de suicídio na perspectiva da Gestalt-terapia; (III) dialogar,
sob a luz desta abordagem, estratégias interventivas e manejo familiar perante o enfrentamento e a elaboração do luto. Para tanto optamos pela metodologia de revisão bibliográfica
integrativa de caráter qualitativo. Como referência autoral para desenvolver a temática podemos citar Karina Okajima Fukumitsu (2013) Maria Júlia Kovács (2016) Lilian Meyer Frazão
(2013).
Por ser um tipo de morte violenta e repentina o luto familiar em casos de suicídio
é considerado pelos estudiosos do tema, um luto complicado. A Gestalt-terapia, utilizando
de seu aporte teórico, enfatiza que em situações de extremo desespero como nos casos de
suicídio a awareness torna-se limitada, estabelecendo um contato deficiente. A relação e
fluxo da figura-fundo torna-se ineficiente ou mesmo ausente. Desta forma, o terapeuta atua
como heterossuporte auxiliando no desenvolvimento do autossuporte, se fazendo presente
durante o processo psicoterapêutico (FUKUMITSU, 2012). Para a Gestalt-Terapia, a postura do
terapeuta é de buscar compreender o sofrimento do consulente caminhando junto com ele,
se afastando de qualquer neutralidade. Dessa maneira, a relação dialógica representa um
poderoso instrumento e a maior técnica de intervenção da abordagem durante o processo
de psicoterapia, considerando uma de suas premissas o aqui-e-agora, desconsiderando processos de interpretações perante as narrativas do consulente (FREITAS, 2016).
PALAVRAS-CHAVE: Luto, Suicídio, Família, Gestalt–terapia.
1 Bacharelado em Psicologia – UNINTA- Itapipoca – CE
2 Mestra em Psicologia - Universidade Federal do Ceará
1. INTRODUÇÃO
A morte biológica é inerente à condição humana, assim, deveríamos compreendê-la e aceitá-la da forma menos
dolorosa possível, já que tudo que nasce inevitavelmente tem que morrer, mas não é isso que percebemos quando
estudamos este fenômeno ao longo dos séculos e em culturas diferentes, a forma como as diversas culturas e contextos sociais enfrentam e lidam com ela tem variado, isso porque, há uma influência
coletiva e cultural que contribuem para a forma de como olhar e vivenciar a morte.
A diversidade cultural influencia na forma e nos rituais no momento de despedida
e de homenagem aquele que morreu, cada
cultura tem sua tradição e visão do que seja
esse evento natural da vida, porém sabemos que devido a singularidade humana
esse processo é visto e sentido de variadas
maneiras a depender do grau de afetividade, circunstâncias da morte, bem como
características socioculturais (MAGALHÃES;
MELO, 2015).
As perdas da vida são um tema universal
e antigo, portanto, não se referem apenas à
morte das pessoas que amamos, às separações e às partidas, mas também à perda
de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder. E ainda
a perda de nosso eu jovem, o eu que se julgava imune às rugas, invulnerável e imortal
(VIORST, 1988). É neste momento que o ser
humano passa por um processo de “Luto”,
que é conceituado e analisado de diversas
formas por autores e estudiosos da temá-
tica, mas que podemos entender genericamente como o processo de elaboração e
nova condição perante à vida após a perda
de um ser, de um objeto que tem significado afetivo e emocional durante a vida.
Destacamos o luto como um processo
doloroso e natural diante das perdas da vida,
mas, e quando se trata do luto por suicídio?
Como enfrentar tal problemática, principalmente no que diz respeito ao luto familiar?
Essa resposta é complexa, difícil de solucionar, pois trata-se de uma forma de perda
onde existem muitas interrogações, tabus,
preconceitos, julgamentos, sentimento de
culpa, constrangimento social, vergonha, revolta, além de uma dor imensurável sentida
por aqueles que perderam seu ente querido
de forma repentina e violenta
O suicídio está presente na história, e de
acordo com a época é visto, interpretado e
conceituado de forma diferente. Percebe-se,
então, o quanto o contexto histórico influencia até hoje a forma como o fenômeno vem
sendo analisado, e discutido de acordo com
as mudanças em cada tempo e período da
história. (ALEXANDRE; JALANE; POLYANA,
2020).
Segundo Netto (2013) já antes da Idade Média com Santo Agostinho e durante
a mesma, a morte auto infligida passa ser
considerada pecado e um crime que lesava
os interesses da Coroa. As pessoas que cometiam o ato nessa época, tinham os bens
confiscados prejudicando suas próprias
famílias, e, além disso, os cadáveres eram
penalizados. Minois (2018) afirma que no
século V, a morte voluntária passa a ser tratada de forma rígida pelo cristianismo, vista
então como um crime contra o sexto mandamento, tornando a legislação canônica e
civil cada vez mais inflexível predominando
na Europa até a modernidade com penas
que vão desde exposição do cadáver até a
proibição do enterro nos cemitérios.
Com a separação entre a Coroa e a igreja no final da Idade Média, a medicina então
passou a ocupar um lugar de destaque e autoridade perante a sociedade, a morte auto
infligida é então deslocada para o campo da
doença e da loucura (ALEXANDRE; JALANE;
POLYANA, 2020).
No século XIX, o tema é “dominado” pela
medicina, em concomitância com o advento
da Psiquiatria, proporcionando o isolamento dos chamados alienados através de internações nos hospitais psiquiátricos, o uso
de drogas para o controle do dito “doente
mental” e o suposto bem-estar das famílias
dos chamados loucos. Faz-se imprescindível
perceber o quanto esse discurso da aliena-
ção mental ainda permanece na atualidade,
sobretudo quando se refere ao sujeito que
comete suicídio.
Fica claro desta forma o chamado reducionismo psiquiátrico que dificulta bastante
uma compreensão mais aprofundada sobre o fenômeno do auto aniquilamento que
deve considerar também os fatores sociais,
culturais, subjetivos, além da própria história
do sujeito (ALEXANDRE; JALANE; POLYANA,
2020)
Franco (2002) cita cinco dimensões das
reações comuns ao luto:
Experienciar o luto por suicídio de um
ente querido causa grandes mudanças e
transformações nos familiares, as perguntas sem respostas, buscas por explicações,
especulações, a própria relação com aquele que se matou pode mudar, sensação de
morrer junto com aquele que se foi, a desorganização do sistema familiar, o doloroso e
longo processo na busca constante de for-
ças para continuar a viver, tendo a certeza
de que nada será como antes (FUKUMITSU;
KOVÁCS, 2016). Nesses casos, os familiares
e amigos são vistos como “sobreviventes”
por conta do extremo sofrimento psíquico,
emocional, orgânico e espiritual, que são
acometidos os familiares. Um período de
crise intensa em que, à primeira vista, não
se sabe como sair de uma situação em extrema crise existencial (ROCHA; LIMA, 2019).
Afetados por múltiplos sentimentos
conflitantes, como o medo, a culpa, a raiva,
a tristeza, a ansiedade, a vergonha e a saudade, os sobreviventes também podem
experimentar estabelecer contato com outras decorrências dessas emoções intensas,
como a negação, a depressão, o isolamento,
a não aceitação da ausência daquele que
cometeu suicídio, assim como problemas
de ajustamento, dificuldades de estabelecer novas relações, sensação de desamparo,
queda de produtividade, desenvolvimento
de transtornos mentais, aumento do uso de
drogas ou álcool e desinvestimento em sua
própria vida (Tavares, 2013, p. 48-49).
Além de todo o contexto já exposto, há
ainda a necessidade de continuar com os
deveres da vida profissional e social, o que
agora torna-se um verdadeiro tormento, já
que há uma perda de sentido a tudo que
se refere aos sobreviventes. Faz-se essencial
então o apoio de profissionais de saúde para
auxiliar nesse processo de ressignificação,
mudanças de papéis na vivência familiar, e a
retomada da vida agora sem a presença do
ente querido (Rocha e Lima 2019).
Utilizou-se como metodologia a revisão de literatura integrativa, levantamento bibliográfico qualitativo onde é possível
proporcionar reflexões e discussões, assim
como possibilitar a realização de estudos
futuros significativos. A busca do conteúdo
para esse estudo ocorreu no processo de
análise de banco de dados da Scielo, Google acadêmico e Pepsic, bem como livros e
capítulos de livros apontados como referências para a discussão da referida temática.
Os seguintes descritores foram usados,
juntamente com as combinações de conectivos: Luto familiar and Gestalt-terapia, suicídio and Gestalt-terapia, luto familiar and
suicídio com o recorte temporal dos últimos
10(dez) anos: 2002 -2022.
Para critérios de inclusão utilizamos:
artigos completos, publicados em língua
portuguesa, com apresentação satisfató-
ria possibilitando atingir nossos objetivos.
Como critério de exclusão foram observadas
as publicações duplicadas, trabalhos incompletos, teses de doutorado que não contemplaram o propósito do trabalho.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
COMO FERRAMENTA PARA
AUXILIAR NO PROCESSO DE
LUTO POR SUICÍDIO
A Gestalt-terapia compreende o homem como um ser holístico, ou seja, multidimensional, desta forma é necessária uma
integralidade de todas as suas dimensões,
física, intelectual, emocional, social, mental
e espiritual para que haja equilíbrio diante
das adversidades e situações que demandam tolerância, aceitação, disposição, para o
enfrentamento das vicissitudes da vida com
total equilíbrio.
Na perspectiva humanista e fenomenológica, que são bases epistemológicas da
Gestalt-terapia, a constituição mútua do homem com o mundo, possibilita um espaço
produtivo para novos desdobramentos teó-
ricos na área da psicologia no que se refere
aos seus métodos e sua própria epistemologia. Esta ideia compreende o homem e o
mundo como um mesmo organismo. Desta
forma, a constituição subjetiva não pode ser
dissociado do mundo.
Para se compreender o fenômeno humano é necessário entender como tal fenômeno ocorre no mundo, esta proposição
supera o dualismo que há muito tempo
predomina na cultura ocidental, como por
exemplo corpo versus mente, objetivo versus subjetivo, interno versus externo. Este
propósito só poderá ser alcançado perante
uma dialética sem limitações que tornará
possível admitir a inserção do homem no
mundo. (ROCHA; BORIS; MOREIRA, 2012).
A análise do suicídio na perspectiva fenomenológico existencial supera o reducionismo do diagnóstico clínico, deixando de
descrever somente as características psicopatológicas para explicar e compreender o
fenômeno do suicídio. Portanto, o ato suicida passa a ser compreendido em mútua
constituição do homem com o mundo em
um universo diverso da experiência humana (ROCHA, BORIS, MOREIRA, 2012).
Aniquilar é eliminar a existência, a plena
Gestalt sem o objeto, destruir um todo em
pedaços, para reconhecer com partes da
novidade uma nova totalidade, sendo a destruição uma forma de se defender da dor ou
de uma ameaça (PERLS 1997). Batista e Santos (2014) destacaram o ato suicida como
uma tentativa de suprimir um sofrimento
psíquico insuportável. Fukumitsu (2015) corrobora com esse pensamento ao salientar
que há no suicídio uma ambivalência entre
o desejo de viver e o de acabar com a dor,
sem que haja propriamente a vontade de
morrer, mas o de finalizar aquele sofrimento, acompanhado do impulso emocional e
fixação do pensamento que podem levar o
indivíduo a tentativa de aniquilar sua pró-
pria vida.
Devemos refletir e ampliar o nosso pensamento no que se refere a tendência de reduzirmos a morte voluntária sempre a um
transtorno mental ou psiquiátrico. A pessoa
pode estar vivenciando em sua experiência
existencial um intenso sofrimento mental
que pode ter origem em fatores sociais, econômicos, culturais, emocionais atribuídos ao
contexto histórico de uma determinada sociedade (NETTO, 2013).
A Gestalt Terapia tem como premissa
que o todo é diferente da soma das partes,
ou seja, o todo é maior do que as partes (FRAZÃO,2013). Desta forma, a pessoa que pensa
no suicídio deseja eliminar o sofrimento que
é parte da existência, mas confunde a necessidade de aniquilar seu sofrimento com
auto aniquilar-se, matando o todo.
Em decorrência da falta ou fragilidade
em seu autossuporte, possível presença de
ajustamentos disfuncionais, impulsividade,
pensamentos e percepções distorcidos e
polarizados, além de fronteiras de contato
reduzidas ou rígidas e awareness limitada,
o consulente não consegue perceber, identificar ou vislumbrar opções que o façam sair
da ideação (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).
Segundo Yontef (1998), quando o processo de formação e destruição da “Gestalt”
é bloqueado, as necessidades não são reconhecidas, comprometendo a flexibilidade
da fronteira de contato, não permitindo a
formação de uma nova Gestalt ou mesmo
tornando-a incompleta. O contato é próprio
da condição humana e o seu mau funcionamento é compreendido como uma patologia, nesse caso há um afastamento de sua
experiência fenomenológico-existencial,
prejudicando assim os processos de homeostase e ajustamento criativo (FONSECA,
2003).
O contato é força vital para o crescimento, forma de mudar através da experiência
com o meio, possibilitando observar o que
é saudável ou tóxico, é pelo contato que experienciamos as dores, alegrias, frustações,
aprendemos com uma troca constante de
sentimentos, pensamentos e ações que nos
levam a ampliar a awareness, permitindo
assim acessar ao novo, em um movimento
constante pela busca da integração entre
campo/organismo/meio (FUKUMITSU, 2012).
3. A GESTALT-TERAPIA E O MANEJO
COM A IDEAÇÃO SUICIDA
De acordo com Perls, Hefferline e Goodman (1997) a teoria “Gestáltica” tem como
base a natureza das relações de contato
entre a pessoa, o seu auto e hetero suporte. Quando acontece o empobrecimento ou
distanciamento desta relação, há uma perda de qualidade no contato, e consequentemente uma redução de seu potencial prejudicando assim a criatividade, auto regulação
e crescimento. A Gestalt-terapia tem como
propósito possibilitar espaços para facilitar
o processo de contato e de seu desenvolvimento, para isso entende que é necessário
tempo e condições para esse pleno vivenciar
na medida que vai se permitindo a novas experiências, tornando-se assim o consulente
condutor da sua própria vida (FONSECA,
2003)
Fukumitsu e Scavacini (2013) salientam
como imprescindível que o terapeuta esteja
consciente de que sua função não é obrigatoriamente salvar a vida do seu cliente, e sim
poder oferecer possibilidades e alternativas
saudáveis ampliando assim a sua percepção
sobre suas questões existenciais.
Freitas (2016) destaca que o psicoterapeuta precisa estar disponível para caminhar junto com seu consulente superando
uma intervenção meramente técnica. Sendo necessário especificidades como capacidade de ouvir e prestar atenção no outro
sem julgamentos e crenças particulares,
sempre aberto ao encontro autêntico, criativo e de observação, estando aberto para o
desconhecido ou inesperado. A psicoterapia
oferece alternativas e possibilidades para
que o consulente possa perceber o seu propósito enquanto ser humano, não existindo
uma receita pronta, pois cada um tem sua
singularidade, uma representação no tempo e espaço. A terapia, portanto, tem como
objetivo a autopercepção do que seja saudável ou não, para que a partir desses pontos o consulente possa desenvolver seu autossuporte e assim ampliar sua awareness
(FUKUMITSU, 2012).
No que diz respeito aos mecanismos
neuróticos que dialogam com a Ideação suicida, é possível destacar uma breve análise
de suas expressões. A projeção surge quando a pessoa busca uma outra forma de viver,
talvez com menos sofrimento e fantasiando
que a vida será diferente após a morte, vê
na morte a possibilidade de conseguir o que
não foi possível durante a vida (FUKUMITSU
2011).
A retroflexão acontece quando o consulente direciona toda a energia contra si
mesmo, ao invés de direcioná-la para o ambiente, não havendo então o processo de
autor regulação ou homeostase (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013). A proflexão é percebida quando o indivíduo deseja se vingar do
outro ou quando, por meio de sua morte,
ameaçar o outro para que a situação se torne como desejava (FUKUMITSU; SCAVACINI,
2013 p.202).
A confluência, é notada quando o sujeito tem a impressão de já estar morto em
sua própria existência e morrer seria a completa identificação na sua totalidade com a
parte que não existe mais dentro do campo
(FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).
4. A GESTALT TERAPIA COMO
INSTRUMENTO DE AUXÍLIO NO
PROCESSO DE LUTO POR SUICÍDIO
A perda de um ente querido desencadeia emoções e sofrimento, e por isso o contato é evitado em um primeiro momento na
própria consciência como forma de amenizar a dor. Dessa maneira, o enlutado se nega
a contatar de forma plena os sentimentos,
impossibilitando a percepção, a vivência e o
reajustamento da novidade (SOUSA 2016).
De acordo com Perls, Hefferline e Goodman
(1997), a perda revela o novo que, conforme
as circunstâncias, provoca ansiedade, medos e bloqueios. A preocupação do momento causa uma excitação crescente buscando
o fechamento de um ciclo ou de uma Gestalt, uma nova figura então é construída. As
perdas “mal digeridas” se tornam introjeções que precisam ser assimiladas e finalizadas, diferente das perdas compreendidas
e “digeridas” que nos dão um direcionamento, no qual a energia, antes enrijecida,
poderá ser ressignificada e utilizada a nosso
favor” (FUKUMITSU, 2004).
O contato é força vital para o crescimento, forma de mudar através da experiência
com o meio, possibilitando observar o que
é saudável ou tóxico, é pelo contato que experienciamos as dores, alegrias, frustações,
aprendemos com uma troca constante de
sentimentos, pensamentos e ações que nos
levam a ampliar a awareness, permitindo
assim acessar ao novo, em um movimento
constante pela busca da integração entre
campo/organismo/meio (FUKUMITSU, 2012).
Em situações desesperadoras o contato
é insuficiente e a awareness torna-se limitada. Em casos de suicídio o que deve ser
considerado não é o próprio ato, mas sim a
falta de sentido de vida atribuído a perda da
relação figura fundo, o terapeuta funciona
como hetero suporte auxiliando no desenvolvimento do auto suporte, para isso deve
estar presente de forma afetiva e efetiva durante o processo psicoterapêutico (FUKUMITSU,2012).
Contatar a nova realidade, reconhecendo a perda, expressando sentimentos
dolorosos em sua totalidade, possibilitará a reelaboração do real, novas formas de
ser surgirão possibilitando a renovação dos
sentimentos, manifestando-se assim uma
nova realidade perante a vida. O luto, precisa ser vivenciado até o seu esgotamento,
para isso as emoções devem ser expressas.
Os conflitos vividos de forma consciente e
plena possibilitam o crescimento rompendo comportamentos modelados, levando
a destruição, assimilação e a construção de
uma nova Gestalt, a perda de um ente querido é uma situação ímpar, aonde faz-se necessário a destruição de alguns hábitos para
a assimilação de novas configurações do ser
(SOUSA, 2016).
5. O AJUSTAMENTO CRIATIVO
FUNCIONAL COMO INSTRUMENTO NA PREVENÇÃO E
POSVENÇÃO
Para (Perls, Hefferline, & Goodman,1997)
a experiência humana é percebida na fronteira de contato em ação formando assim
o Self na perspectiva da Gestalt Terapia, a
qualidade desse contato então é o que atribuímos de ajustamento criativo. Segundo
(RIBEIRO,2006) quando utilizamos recursos
disponíveis pelo organismo encontrados
durante o contato na relação corpo-ambiente acontece então o ajustamento criativo possibilitando uma vivência saudável.
O organismo para se ajustar de forma
saudável, busca a auto regulação e precisa descobrir estratégias para se adaptar ao
bom funcionamento, é desenvolvido o ajustamento criativo quando o indivíduo firma
ações buscando ter uma vida salutar (MENDONÇA, 2007). De acordo com Cardella
(2014), ajustamento criativo é a capacidade
subjetiva do organismo apropriar experi-
ências que se dão no encontro com as diferenças no campo organismo e meio num
processo dinâmico, uma ação que se forma
conforme a vivência, uma resposta dada da
melhor forma possível para o momento. O
ajustamento refere a realidade, e o criativo
dimensiona a fantasia ampliando possibilidades (ROBINE, 2006).
Quando pensamos em estudar e
compreender o tema suicídio à luz da Gestalt, já temos como premissa tratar de questões existenciais como perda de sentido,
medo, solidão, tédio, ansiedade e depressão,
desta forma durante o processo psicoterápico o principal objetivo seria identificar as
causas ou motivos pelos quais o auto aniquilamento esteja sendo percebido como a
única solução naquele momento da vida. É
então trabalho do psicoterapeuta oferecer
possibilidades para que o consulente com
ideação possa encontrar outras formas de
enfrentar os seus conflitos, novas alternativas para lhe dar com aquela situação que
está lhe causando profundo sofrimento
(FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).
De acordo com Perls, Hefferline e Goodman (1997) a teoria “Gestáltica” tem como
base a natureza das relações de contato
entre a pessoa, o seu auto e hetero suporte. Quando acontece o empobrecimento
ou distanciamento desta relação, há uma
perda de qualidade no contato, e consequentemente uma redução de seu potencial prejudicando assim a “criatividade”, auto
regulação e crescimento.
A Gestalt-terapia tem como propósito
possibilitar espaços para facilitar o processo
de contato e de seu desenvolvimento, para
isso entende que é necessário tempo e condições para esse pleno vivenciar na medida
que vai se permitindo a novas experiências,
tornando-se assim o consulente condutor
da sua própria vida (FONSECA, 2003).
Freitas (2016) destaca que o psicoterapeuta precisa estar disponível para caminhar junto com seu consulente superando
uma intervenção meramente técnica. Sendo necessário então especificidades como
capacidade de ouvir e prestar atenção no
outro sem julgamentos e crenças particulares, sempre aberto ao encontro autêntico, criativo e de observação, estando aberto
para o desconhecido ou inesperado.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
De acordo com Franco (2011) o suicídio
por ser um tipo de morte repentina e violenta, o luto da família é considerado complicado, tanto, que é dado as pessoas enlutadas
o adjetivo de “sobreviventes” por estudiosos
do tema, já que todos os aspectos da vida
dos que ficaram foram afetados. Não é apenas uma difícil experiência de vida, mas
uma profunda crise existencial devido a forma como se deu a perda e a necessidade de
continuar a vida com todas as suas exigências sociais e familiar, o desajuste estrutural
do grupo consanguíneo pede tempo e recursos para que haja um restabelecimento
emocional e afetivo tornando possível o enfrentamento e assimilação do ocorrido.
Segundo (TAVARES, 2013) Os chamados sobreviventes são afetados por sentimentos e emoções como culpa, raiva,
tristeza, ansiedade, vergonha, saudade, depressão, isolamento, uso de drogas, podendo ainda desenvolver transtornos mentais.
É enfatizado por Miranda (2014) a diferen-
ça do luto por suicídio e por morte natural,
já que no segundo há uma expressão dos
sentimentos, enquanto que no primeiro o
preconceito, julgamento, e outros aspectos
culturais e de crenças religiosa constitui um
verdadeiro tabu, dificultando muito o manifestar de todo o sofrimento dos enlutados
Para Gestalt-Terapia a postura do terapeuta é de buscar compreender o sofrimento do consulente caminhado junto com
ele, se afastando de qualquer neutralidade,
desta forma a relação dialógica um poderoso instrumento e a maior técnica de intervenção da abordagem durante o processo
de psicoterapia considerando uma de suas
premissas o aqui-e-agora, desconsiderando
interpretações (FREITAS, 2016). Dessa forma,
a Gestalt-Terapia entende que expressar os
sentimentos de dor, bem como conflitos
subjetivos, entrando em contato com a nova
realidade e buscando o enfrentamento, reconhecendo a perda em sua totalidade, tornará possível a elaboração do luto.
Abre-se espaço para o surgimento de
uma nova realidade diante da vida por conta da reelaboração do real, uma nova forma
de ser, outros sentimentos surgem, tornando possível a destruição, a assimilação e a
construção de uma nova Gestalt ou forma
de viver (SOUSA, 2016). Ressalta-se com extrema importância, a necessidade de novos
estudos e pesquisas sobre o tema, destacando a imprescindível participação das políticas públicas, ciências humanas e sociais,
ambiente educacional, bem como de toda
a sociedade no que se refere ao combate a
essa tragédia humana.
REFERÊNCIAS
BIRCK, Michele Daiane. Perdas Necessárias sob o
olhar da Gestalt Terapia Comunidade gestáltica –
Clínica e Escola de Psicoterapia Florianópolis SC 2010.
COSTA, Cristiane de Figueiredo - FENOMENOLOGIA:
Uma discussão acerca da articulação entre Husserl e
Gestalt-terapia, Revista IGT na Rede, V. 7, Nº. 13, 2010.
CRUZ, Carolina Alves et al. O Suicídio na Perspectiva
das Psicologias Humanista, Fenomenológica e Existencial: Revisão Sistemática e Metassíntese. Contextos
Clínicos, v. 13, n. 1, jan./abr. 2020 ISSN 1983-3482 doi:
10.4013/ctc.2020.131.14.
FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima
(Org.). Gestalt-terapia: fundamentos epistemológicos e influências filosóficas. São Paulo: Summus, 2013.
FUKUMITSU, Karina Okajima: Vida, Morte e Luto: Atualidades brasileiras – 3° reimpressão São Paulo: Summus, 2018. 280 p.: il.
ROCHA, P. G; LIMA, D. M. A. Suicídio: Peculiaridades do
luto das famílias sobreviventes e a atuação do psicó-
logo Psic. Clín. Rio de Janeiro, vol.31, n.2, p. 323 – 344,
mai-ago/2019
FUKUMITSU, Karina Okajima; KOVÁCS, Maria Júlia; Especificidades sobre o processo de luto frente ao suicídio; universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Porto Alegre, 2016; 47(1), 3-12.
MARTINS, Marize; LIMA, Patrícia Valle de Albuquerque
- Contribuições da Gestalt Terapia para os enfrentamentos das perdas e da morte. Revista IGT na Rede,
v.11, nº 20, 2014, p. 3 - 39.
NUNES, Richard Alexandre; FIRMINO, Willyanne Gomes. A Compreensão do luto sob o olhar da Gestalt-terapia Universidade Federal de Alagoas, Campus
Arapiraca Unidade Educacional de Palmeiras dos Índios 2020.
FUKUMITSU, Karina Okajima: Sobreviventes enlutados por suicídio: cuidados e intervenções / 1. ed. – São
Paulo: Summus, 2019. 120 p.
RODRIGUES, Vânia Maria Amaral. Uma Revisão da Literatura Acerca do Processo de Elaboração do Luto
no Sistema Familiar e os Manejos Usados por Psicólogos nesse Contexto.
O Portal dos Psicólogos. Documento publicado em 05 de Junho de 2016. Disponível
em: www.scielo.br. Acesso em: 22 ago. 2019.
SILVA, Rosimere Viana Barbosa da - Os conflitos na
Fronteira de Contato entre Pais e Filhos Adolescentes.
Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015. p. 53 – 66. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526.
SOUSA, Luiza Eridan Elmiro Martins de – O processo de
luto na abordagem gestáltica: contato e afastamento,
destruição e assimilação. Revista IGT na Rede, v. 13, nº
25, 2016. p. 253 – 272. Disponível em http://www.igt.psc.
br/ojs ISSN: 1807- 2526.
