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LUTO FAMILIAR NA PERSPECTIVA DA GESTALT-TERAPIA EM CASOS DE SUICÍDIO
Naelson Freitas Diniz 1
Jéssica Pascoalino Pinheiro 2

Artigo publicado em: FLUIR • Revista de Estudos Gestálticos • ISSN: 2764-9601 • Vol. 4 • Nº 4 • Julho • 2024 • CENTRO GESTÁLTICO DE FORTALEZA

luto-familiar


RESUMO:
O propósito deste trabalho é entender como a Gestalt-terapia pode contribuir enquanto instrumento científico na assistência psicológica a familiares enlutados por suicídio de um de seus integrantes. Buscamos como objetivos: (I) discorrer acerca do fenômeno da morte e do suicídio apontando estigmas, tabus e preconceitos na cultura ocidental; (II) compreender o processo de luto familiar em casos de suicídio na perspectiva da Gestalt-terapia; (III) dialogar, sob a luz desta abordagem, estratégias interventivas e manejo familiar perante o enfrentamento e a elaboração do luto. Para tanto optamos pela metodologia de revisão bibliográfica integrativa de caráter qualitativo. Como referência autoral para desenvolver a temática podemos citar Karina Okajima Fukumitsu (2013) Maria Júlia Kovács (2016) Lilian Meyer Frazão (2013).


Por ser um tipo de morte violenta e repentina o luto familiar em casos de suicídio é considerado pelos estudiosos do tema, um luto complicado. A Gestalt-terapia, utilizando de seu aporte teórico, enfatiza que em situações de extremo desespero como nos casos de suicídio a awareness torna-se limitada, estabelecendo um contato deficiente. A relação e fluxo da figura-fundo torna-se ineficiente ou mesmo ausente. Desta forma, o terapeuta atua como heterossuporte auxiliando no desenvolvimento do autossuporte, se fazendo presente durante o processo psicoterapêutico (FUKUMITSU, 2012). Para a Gestalt-Terapia, a postura do terapeuta é de buscar compreender o sofrimento do consulente caminhando junto com ele, se afastando de qualquer neutralidade. Dessa maneira, a relação dialógica representa um poderoso instrumento e a maior técnica de intervenção da abordagem durante o processo de psicoterapia, considerando uma de suas premissas o aqui-e-agora, desconsiderando processos de interpretações perante as narrativas do consulente (FREITAS, 2016).

PALAVRAS-CHAVE: Luto, Suicídio, Família, Gestalt–terapia.



1 Bacharelado em Psicologia – UNINTA- Itapipoca – CE
2 Mestra em Psicologia - Universidade Federal do Ceará


1. INTRODUÇÃO

A morte biológica é inerente à condição humana, assim, deveríamos compreendê-la e aceitá-la da forma menos dolorosa possível, já que tudo que nasce inevitavelmente tem que morrer, mas não é isso que percebemos quando estudamos este fenômeno ao longo dos séculos e em culturas diferentes, a forma como as diversas culturas e contextos sociais enfrentam e lidam com ela tem variado, isso porque, há uma influência coletiva e cultural que contribuem para a forma de como olhar e vivenciar a morte.

A diversidade cultural influencia na forma e nos rituais no momento de despedida e de homenagem aquele que morreu, cada cultura tem sua tradição e visão do que seja esse evento natural da vida, porém sabemos que devido a singularidade humana esse processo é visto e sentido de variadas maneiras a depender do grau de afetividade, circunstâncias da morte, bem como características socioculturais (MAGALHÃES; MELO, 2015).

As perdas da vida são um tema universal e antigo, portanto, não se referem apenas à morte das pessoas que amamos, às separações e às partidas, mas também à perda de sonhos românticos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder. E ainda a perda de nosso eu jovem, o eu que se julgava imune às rugas, invulnerável e imortal (VIORST, 1988). É neste momento que o ser humano passa por um processo de “Luto”, que é conceituado e analisado de diversas formas por autores e estudiosos da temá- tica, mas que podemos entender genericamente como o processo de elaboração e nova condição perante à vida após a perda de um ser, de um objeto que tem significado afetivo e emocional durante a vida.

Destacamos o luto como um processo doloroso e natural diante das perdas da vida, mas, e quando se trata do luto por suicídio? Como enfrentar tal problemática, principalmente no que diz respeito ao luto familiar? Essa resposta é complexa, difícil de solucionar, pois trata-se de uma forma de perda onde existem muitas interrogações, tabus, preconceitos, julgamentos, sentimento de culpa, constrangimento social, vergonha, revolta, além de uma dor imensurável sentida por aqueles que perderam seu ente querido de forma repentina e violenta

O suicídio está presente na história, e de acordo com a época é visto, interpretado e conceituado de forma diferente. Percebe-se, então, o quanto o contexto histórico influencia até hoje a forma como o fenômeno vem sendo analisado, e discutido de acordo com as mudanças em cada tempo e período da história. (ALEXANDRE; JALANE; POLYANA, 2020).

Segundo Netto (2013) já antes da Idade Média com Santo Agostinho e durante a mesma, a morte auto infligida passa ser considerada pecado e um crime que lesava os interesses da Coroa. As pessoas que cometiam o ato nessa época, tinham os bens confiscados prejudicando suas próprias famílias, e, além disso, os cadáveres eram penalizados. Minois (2018) afirma que no século V, a morte voluntária passa a ser tratada de forma rígida pelo cristianismo, vista então como um crime contra o sexto mandamento, tornando a legislação canônica e civil cada vez mais inflexível predominando na Europa até a modernidade com penas que vão desde exposição do cadáver até a proibição do enterro nos cemitérios.

Com a separação entre a Coroa e a igreja no final da Idade Média, a medicina então passou a ocupar um lugar de destaque e autoridade perante a sociedade, a morte auto infligida é então deslocada para o campo da doença e da loucura (ALEXANDRE; JALANE; POLYANA, 2020).

No século XIX, o tema é “dominado” pela medicina, em concomitância com o advento da Psiquiatria, proporcionando o isolamento dos chamados alienados através de internações nos hospitais psiquiátricos, o uso de drogas para o controle do dito “doente mental” e o suposto bem-estar das famílias dos chamados loucos. Faz-se imprescindível perceber o quanto esse discurso da aliena- ção mental ainda permanece na atualidade, sobretudo quando se refere ao sujeito que comete suicídio.

Fica claro desta forma o chamado reducionismo psiquiátrico que dificulta bastante uma compreensão mais aprofundada sobre o fenômeno do auto aniquilamento que deve considerar também os fatores sociais, culturais, subjetivos, além da própria história do sujeito (ALEXANDRE; JALANE; POLYANA, 2020)

Franco (2002) cita cinco dimensões das reações comuns ao luto:

1. Dimensão Intelectual: composta por reações de confusão, desorganização, desorientação, falta de concentração, intelectualizarão e negação; 2. Dimensão Emocional: choque, entorpecimento, raiva, culpa, alívio, depressão, irritabilidade,solidão, saudade, descrença, tristeza, negação, ansiedade,confusão e medo; 3. Dimensão Física: alteração do apetite, visão borrada, alterações do sono, inquietação, dispneia, palpitações cardíacas, exaustão, boca seca, perda do interesse sexual, alterações no peso, dor de cabe- ça, mudanças no funcionamento intestinal, choro e; 4. Dimensão Espiritual: sonhos, perda de fé , aumento da fé, raiva de Deus, dor espiritual, questionamento de valores, sentir-se traído por Deus, desapontamento com membros da igreja. 5. Dimensão social: perda da identidade, isolamento, afastamento, falta de intera- ção, perda da habilidade para se relacionar socialmente. (SOUSA, 2016, p. 260).


Experienciar o luto por suicídio de um ente querido causa grandes mudanças e transformações nos familiares, as perguntas sem respostas, buscas por explicações, especulações, a própria relação com aquele que se matou pode mudar, sensação de morrer junto com aquele que se foi, a desorganização do sistema familiar, o doloroso e longo processo na busca constante de for- ças para continuar a viver, tendo a certeza de que nada será como antes (FUKUMITSU; KOVÁCS, 2016). Nesses casos, os familiares e amigos são vistos como “sobreviventes” por conta do extremo sofrimento psíquico, emocional, orgânico e espiritual, que são acometidos os familiares. Um período de crise intensa em que, à primeira vista, não se sabe como sair de uma situação em extrema crise existencial (ROCHA; LIMA, 2019).

Afetados por múltiplos sentimentos conflitantes, como o medo, a culpa, a raiva, a tristeza, a ansiedade, a vergonha e a saudade, os sobreviventes também podem experimentar estabelecer contato com outras decorrências dessas emoções intensas, como a negação, a depressão, o isolamento, a não aceitação da ausência daquele que cometeu suicídio, assim como problemas de ajustamento, dificuldades de estabelecer novas relações, sensação de desamparo, queda de produtividade, desenvolvimento de transtornos mentais, aumento do uso de drogas ou álcool e desinvestimento em sua própria vida (Tavares, 2013, p. 48-49).

Além de todo o contexto já exposto, há ainda a necessidade de continuar com os deveres da vida profissional e social, o que agora torna-se um verdadeiro tormento, já que há uma perda de sentido a tudo que se refere aos sobreviventes. Faz-se essencial então o apoio de profissionais de saúde para auxiliar nesse processo de ressignificação, mudanças de papéis na vivência familiar, e a retomada da vida agora sem a presença do ente querido (Rocha e Lima 2019).

Utilizou-se como metodologia a revisão de literatura integrativa, levantamento bibliográfico qualitativo onde é possível proporcionar reflexões e discussões, assim como possibilitar a realização de estudos futuros significativos. A busca do conteúdo para esse estudo ocorreu no processo de análise de banco de dados da Scielo, Google acadêmico e Pepsic, bem como livros e capítulos de livros apontados como referências para a discussão da referida temática.

Os seguintes descritores foram usados, juntamente com as combinações de conectivos: Luto familiar and Gestalt-terapia, suicídio and Gestalt-terapia, luto familiar and suicídio com o recorte temporal dos últimos 10(dez) anos: 2002 -2022.

Para critérios de inclusão utilizamos: artigos completos, publicados em língua portuguesa, com apresentação satisfató- ria possibilitando atingir nossos objetivos. Como critério de exclusão foram observadas as publicações duplicadas, trabalhos incompletos, teses de doutorado que não contemplaram o propósito do trabalho.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA COMO FERRAMENTA PARA AUXILIAR NO PROCESSO DE LUTO POR SUICÍDIO

A Gestalt-terapia compreende o homem como um ser holístico, ou seja, multidimensional, desta forma é necessária uma integralidade de todas as suas dimensões, física, intelectual, emocional, social, mental e espiritual para que haja equilíbrio diante das adversidades e situações que demandam tolerância, aceitação, disposição, para o enfrentamento das vicissitudes da vida com total equilíbrio.

Na perspectiva humanista e fenomenológica, que são bases epistemológicas da Gestalt-terapia, a constituição mútua do homem com o mundo, possibilita um espaço produtivo para novos desdobramentos teó- ricos na área da psicologia no que se refere aos seus métodos e sua própria epistemologia. Esta ideia compreende o homem e o mundo como um mesmo organismo. Desta forma, a constituição subjetiva não pode ser dissociado do mundo.

Para se compreender o fenômeno humano é necessário entender como tal fenômeno ocorre no mundo, esta proposição supera o dualismo que há muito tempo predomina na cultura ocidental, como por exemplo corpo versus mente, objetivo versus subjetivo, interno versus externo. Este propósito só poderá ser alcançado perante uma dialética sem limitações que tornará possível admitir a inserção do homem no mundo. (ROCHA; BORIS; MOREIRA, 2012).

A análise do suicídio na perspectiva fenomenológico existencial supera o reducionismo do diagnóstico clínico, deixando de descrever somente as características psicopatológicas para explicar e compreender o fenômeno do suicídio. Portanto, o ato suicida passa a ser compreendido em mútua constituição do homem com o mundo em um universo diverso da experiência humana (ROCHA, BORIS, MOREIRA, 2012).

Aniquilar é eliminar a existência, a plena Gestalt sem o objeto, destruir um todo em pedaços, para reconhecer com partes da novidade uma nova totalidade, sendo a destruição uma forma de se defender da dor ou de uma ameaça (PERLS 1997). Batista e Santos (2014) destacaram o ato suicida como uma tentativa de suprimir um sofrimento psíquico insuportável. Fukumitsu (2015) corrobora com esse pensamento ao salientar que há no suicídio uma ambivalência entre o desejo de viver e o de acabar com a dor, sem que haja propriamente a vontade de morrer, mas o de finalizar aquele sofrimento, acompanhado do impulso emocional e fixação do pensamento que podem levar o indivíduo a tentativa de aniquilar sua pró- pria vida.

Devemos refletir e ampliar o nosso pensamento no que se refere a tendência de reduzirmos a morte voluntária sempre a um transtorno mental ou psiquiátrico. A pessoa pode estar vivenciando em sua experiência existencial um intenso sofrimento mental que pode ter origem em fatores sociais, econômicos, culturais, emocionais atribuídos ao contexto histórico de uma determinada sociedade (NETTO, 2013).

A Gestalt Terapia tem como premissa que o todo é diferente da soma das partes, ou seja, o todo é maior do que as partes (FRAZÃO,2013). Desta forma, a pessoa que pensa no suicídio deseja eliminar o sofrimento que é parte da existência, mas confunde a necessidade de aniquilar seu sofrimento com auto aniquilar-se, matando o todo.

Em decorrência da falta ou fragilidade em seu autossuporte, possível presença de ajustamentos disfuncionais, impulsividade, pensamentos e percepções distorcidos e polarizados, além de fronteiras de contato reduzidas ou rígidas e awareness limitada, o consulente não consegue perceber, identificar ou vislumbrar opções que o façam sair da ideação (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).

Segundo Yontef (1998), quando o processo de formação e destruição da “Gestalt” é bloqueado, as necessidades não são reconhecidas, comprometendo a flexibilidade da fronteira de contato, não permitindo a formação de uma nova Gestalt ou mesmo tornando-a incompleta. O contato é próprio da condição humana e o seu mau funcionamento é compreendido como uma patologia, nesse caso há um afastamento de sua experiência fenomenológico-existencial, prejudicando assim os processos de homeostase e ajustamento criativo (FONSECA, 2003).

O contato é força vital para o crescimento, forma de mudar através da experiência com o meio, possibilitando observar o que é saudável ou tóxico, é pelo contato que experienciamos as dores, alegrias, frustações, aprendemos com uma troca constante de sentimentos, pensamentos e ações que nos levam a ampliar a awareness, permitindo assim acessar ao novo, em um movimento constante pela busca da integração entre campo/organismo/meio (FUKUMITSU, 2012).

3. A GESTALT-TERAPIA E O MANEJO COM A IDEAÇÃO SUICIDA

De acordo com Perls, Hefferline e Goodman (1997) a teoria “Gestáltica” tem como base a natureza das relações de contato entre a pessoa, o seu auto e hetero suporte. Quando acontece o empobrecimento ou distanciamento desta relação, há uma perda de qualidade no contato, e consequentemente uma redução de seu potencial prejudicando assim a criatividade, auto regulação e crescimento. A Gestalt-terapia tem como propósito possibilitar espaços para facilitar o processo de contato e de seu desenvolvimento, para isso entende que é necessário tempo e condições para esse pleno vivenciar na medida que vai se permitindo a novas experiências, tornando-se assim o consulente condutor da sua própria vida (FONSECA, 2003)

Fukumitsu e Scavacini (2013) salientam como imprescindível que o terapeuta esteja consciente de que sua função não é obrigatoriamente salvar a vida do seu cliente, e sim poder oferecer possibilidades e alternativas saudáveis ampliando assim a sua percepção sobre suas questões existenciais.

Freitas (2016) destaca que o psicoterapeuta precisa estar disponível para caminhar junto com seu consulente superando uma intervenção meramente técnica. Sendo necessário especificidades como capacidade de ouvir e prestar atenção no outro sem julgamentos e crenças particulares, sempre aberto ao encontro autêntico, criativo e de observação, estando aberto para o desconhecido ou inesperado. A psicoterapia oferece alternativas e possibilidades para que o consulente possa perceber o seu propósito enquanto ser humano, não existindo uma receita pronta, pois cada um tem sua singularidade, uma representação no tempo e espaço. A terapia, portanto, tem como objetivo a autopercepção do que seja saudável ou não, para que a partir desses pontos o consulente possa desenvolver seu autossuporte e assim ampliar sua awareness (FUKUMITSU, 2012).

No que diz respeito aos mecanismos neuróticos que dialogam com a Ideação suicida, é possível destacar uma breve análise de suas expressões. A projeção surge quando a pessoa busca uma outra forma de viver, talvez com menos sofrimento e fantasiando que a vida será diferente após a morte, vê na morte a possibilidade de conseguir o que não foi possível durante a vida (FUKUMITSU 2011).

A retroflexão acontece quando o consulente direciona toda a energia contra si mesmo, ao invés de direcioná-la para o ambiente, não havendo então o processo de autor regulação ou homeostase (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013). A proflexão é percebida quando o indivíduo deseja se vingar do outro ou quando, por meio de sua morte, ameaçar o outro para que a situação se torne como desejava (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013 p.202).

A confluência, é notada quando o sujeito tem a impressão de já estar morto em sua própria existência e morrer seria a completa identificação na sua totalidade com a parte que não existe mais dentro do campo (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).

4. A GESTALT TERAPIA COMO INSTRUMENTO DE AUXÍLIO NO PROCESSO DE LUTO POR SUICÍDIO

A perda de um ente querido desencadeia emoções e sofrimento, e por isso o contato é evitado em um primeiro momento na própria consciência como forma de amenizar a dor. Dessa maneira, o enlutado se nega a contatar de forma plena os sentimentos, impossibilitando a percepção, a vivência e o reajustamento da novidade (SOUSA 2016). De acordo com Perls, Hefferline e Goodman (1997), a perda revela o novo que, conforme as circunstâncias, provoca ansiedade, medos e bloqueios. A preocupação do momento causa uma excitação crescente buscando o fechamento de um ciclo ou de uma Gestalt, uma nova figura então é construída. As perdas “mal digeridas” se tornam introjeções que precisam ser assimiladas e finalizadas, diferente das perdas compreendidas e “digeridas” que nos dão um direcionamento, no qual a energia, antes enrijecida, poderá ser ressignificada e utilizada a nosso favor” (FUKUMITSU, 2004).

Em toda e qualquer investigação biológica, psicológica ou sociológica, temos de partir da interação entre organismo e seu ambiente. (...) Não há uma única função, de animal algum, que se complete sem objetos e ambiente, quer se pense em funções vegetativas, como alimentação e sexualidade, quer em funções perceptivas, motoras, sentimento ou raciocínio. (...) qualquer coisa que seja a maneira pela qual teorizamos sobre impulsos, instintos etc., estamos nos referindo sempre a esse campo interacional e não a um animal isolado. (PERLS et al, 1997, p.42).

O contato é força vital para o crescimento, forma de mudar através da experiência com o meio, possibilitando observar o que é saudável ou tóxico, é pelo contato que experienciamos as dores, alegrias, frustações, aprendemos com uma troca constante de sentimentos, pensamentos e ações que nos levam a ampliar a awareness, permitindo assim acessar ao novo, em um movimento constante pela busca da integração entre campo/organismo/meio (FUKUMITSU, 2012).

Assim, a pessoa cujo mundo mudou radicalmente, afasta-se de uma situação intensa e complexa, que está para além do que ela pode suportar, evitando o contato com pessoas, coisas e sentimentos que possam lembrá-la da perda. Com o passar do tempo, ela começa o processo gradual de tomada de consciência do que aconteceu, “familiarizando-se com as novas áreas de incerteza que agora existem em seu mundo” (PARKES, 1998, p. 95).


Em situações desesperadoras o contato é insuficiente e a awareness torna-se limitada. Em casos de suicídio o que deve ser considerado não é o próprio ato, mas sim a falta de sentido de vida atribuído a perda da relação figura fundo, o terapeuta funciona como hetero suporte auxiliando no desenvolvimento do auto suporte, para isso deve estar presente de forma afetiva e efetiva durante o processo psicoterapêutico (FUKUMITSU,2012).

Contatar a nova realidade, reconhecendo a perda, expressando sentimentos dolorosos em sua totalidade, possibilitará a reelaboração do real, novas formas de ser surgirão possibilitando a renovação dos sentimentos, manifestando-se assim uma nova realidade perante a vida. O luto, precisa ser vivenciado até o seu esgotamento, para isso as emoções devem ser expressas. Os conflitos vividos de forma consciente e plena possibilitam o crescimento rompendo comportamentos modelados, levando a destruição, assimilação e a construção de uma nova Gestalt, a perda de um ente querido é uma situação ímpar, aonde faz-se necessário a destruição de alguns hábitos para a assimilação de novas configurações do ser (SOUSA, 2016).

5. O AJUSTAMENTO CRIATIVO FUNCIONAL COMO INSTRUMENTO NA PREVENÇÃO E POSVENÇÃO

Para (Perls, Hefferline, & Goodman,1997) a experiência humana é percebida na fronteira de contato em ação formando assim o Self na perspectiva da Gestalt Terapia, a qualidade desse contato então é o que atribuímos de ajustamento criativo. Segundo (RIBEIRO,2006) quando utilizamos recursos disponíveis pelo organismo encontrados durante o contato na relação corpo-ambiente acontece então o ajustamento criativo possibilitando uma vivência saudável.

O organismo para se ajustar de forma saudável, busca a auto regulação e precisa descobrir estratégias para se adaptar ao bom funcionamento, é desenvolvido o ajustamento criativo quando o indivíduo firma ações buscando ter uma vida salutar (MENDONÇA, 2007). De acordo com Cardella (2014), ajustamento criativo é a capacidade subjetiva do organismo apropriar experi- ências que se dão no encontro com as diferenças no campo organismo e meio num processo dinâmico, uma ação que se forma conforme a vivência, uma resposta dada da melhor forma possível para o momento. O ajustamento refere a realidade, e o criativo dimensiona a fantasia ampliando possibilidades (ROBINE, 2006).

Quando pensamos em estudar e compreender o tema suicídio à luz da Gestalt, já temos como premissa tratar de questões existenciais como perda de sentido, medo, solidão, tédio, ansiedade e depressão, desta forma durante o processo psicoterápico o principal objetivo seria identificar as causas ou motivos pelos quais o auto aniquilamento esteja sendo percebido como a única solução naquele momento da vida. É então trabalho do psicoterapeuta oferecer possibilidades para que o consulente com ideação possa encontrar outras formas de enfrentar os seus conflitos, novas alternativas para lhe dar com aquela situação que está lhe causando profundo sofrimento (FUKUMITSU; SCAVACINI, 2013).

De acordo com Perls, Hefferline e Goodman (1997) a teoria “Gestáltica” tem como base a natureza das relações de contato entre a pessoa, o seu auto e hetero suporte. Quando acontece o empobrecimento ou distanciamento desta relação, há uma perda de qualidade no contato, e consequentemente uma redução de seu potencial prejudicando assim a “criatividade”, auto regulação e crescimento.

A Gestalt-terapia tem como propósito possibilitar espaços para facilitar o processo de contato e de seu desenvolvimento, para isso entende que é necessário tempo e condições para esse pleno vivenciar na medida que vai se permitindo a novas experiências, tornando-se assim o consulente condutor da sua própria vida (FONSECA, 2003).

Freitas (2016) destaca que o psicoterapeuta precisa estar disponível para caminhar junto com seu consulente superando uma intervenção meramente técnica. Sendo necessário então especificidades como capacidade de ouvir e prestar atenção no outro sem julgamentos e crenças particulares, sempre aberto ao encontro autêntico, criativo e de observação, estando aberto para o desconhecido ou inesperado.

Fukumitsu e Kovács (2016, p. 11) ressaltam a viabilidade de superação do luto por suicídio mediante a busca pelo sentido de viver, apesar do sofrimento, e afirmam que assim eles podem “transformar vergonha em permissão, culpa em compaixão, saudade em apropriação das vivências, dor em amor e sofrimento em altruísmo”.


6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com Franco (2011) o suicídio por ser um tipo de morte repentina e violenta, o luto da família é considerado complicado, tanto, que é dado as pessoas enlutadas o adjetivo de “sobreviventes” por estudiosos do tema, já que todos os aspectos da vida dos que ficaram foram afetados. Não é apenas uma difícil experiência de vida, mas uma profunda crise existencial devido a forma como se deu a perda e a necessidade de continuar a vida com todas as suas exigências sociais e familiar, o desajuste estrutural do grupo consanguíneo pede tempo e recursos para que haja um restabelecimento emocional e afetivo tornando possível o enfrentamento e assimilação do ocorrido.

Segundo (TAVARES, 2013) Os chamados sobreviventes são afetados por sentimentos e emoções como culpa, raiva, tristeza, ansiedade, vergonha, saudade, depressão, isolamento, uso de drogas, podendo ainda desenvolver transtornos mentais. É enfatizado por Miranda (2014) a diferen- ça do luto por suicídio e por morte natural, já que no segundo há uma expressão dos sentimentos, enquanto que no primeiro o preconceito, julgamento, e outros aspectos culturais e de crenças religiosa constitui um verdadeiro tabu, dificultando muito o manifestar de todo o sofrimento dos enlutados

Para Gestalt-Terapia a postura do terapeuta é de buscar compreender o sofrimento do consulente caminhado junto com ele, se afastando de qualquer neutralidade, desta forma a relação dialógica um poderoso instrumento e a maior técnica de intervenção da abordagem durante o processo de psicoterapia considerando uma de suas premissas o aqui-e-agora, desconsiderando interpretações (FREITAS, 2016). Dessa forma, a Gestalt-Terapia entende que expressar os sentimentos de dor, bem como conflitos subjetivos, entrando em contato com a nova realidade e buscando o enfrentamento, reconhecendo a perda em sua totalidade, tornará possível a elaboração do luto.

Abre-se espaço para o surgimento de uma nova realidade diante da vida por conta da reelaboração do real, uma nova forma de ser, outros sentimentos surgem, tornando possível a destruição, a assimilação e a construção de uma nova Gestalt ou forma de viver (SOUSA, 2016). Ressalta-se com extrema importância, a necessidade de novos estudos e pesquisas sobre o tema, destacando a imprescindível participação das políticas públicas, ciências humanas e sociais, ambiente educacional, bem como de toda a sociedade no que se refere ao combate a essa tragédia humana.

REFERÊNCIAS

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COSTA, Cristiane de Figueiredo - FENOMENOLOGIA: Uma discussão acerca da articulação entre Husserl e Gestalt-terapia, Revista IGT na Rede, V. 7, Nº. 13, 2010.

CRUZ, Carolina Alves et al. O Suicídio na Perspectiva das Psicologias Humanista, Fenomenológica e Existencial: Revisão Sistemática e Metassíntese. Contextos Clínicos, v. 13, n. 1, jan./abr. 2020 ISSN 1983-3482 doi: 10.4013/ctc.2020.131.14.

FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima (Org.). Gestalt-terapia: fundamentos epistemológicos e influências filosóficas. São Paulo: Summus, 2013.

FUKUMITSU, Karina Okajima: Vida, Morte e Luto: Atualidades brasileiras – 3° reimpressão São Paulo: Summus, 2018. 280 p.: il.

ROCHA, P. G; LIMA, D. M. A. Suicídio: Peculiaridades do luto das famílias sobreviventes e a atuação do psicó- logo Psic. Clín. Rio de Janeiro, vol.31, n.2, p. 323 – 344, mai-ago/2019

FUKUMITSU, Karina Okajima; KOVÁCS, Maria Júlia; Especificidades sobre o processo de luto frente ao suicídio; universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil Porto Alegre, 2016; 47(1), 3-12.

MARTINS, Marize; LIMA, Patrícia Valle de Albuquerque - Contribuições da Gestalt Terapia para os enfrentamentos das perdas e da morte. Revista IGT na Rede, v.11, nº 20, 2014, p. 3 - 39.

NUNES, Richard Alexandre; FIRMINO, Willyanne Gomes. A Compreensão do luto sob o olhar da Gestalt-terapia Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca Unidade Educacional de Palmeiras dos Índios 2020.

FUKUMITSU, Karina Okajima: Sobreviventes enlutados por suicídio: cuidados e intervenções / 1. ed. – São Paulo: Summus, 2019. 120 p.

RODRIGUES, Vânia Maria Amaral. Uma Revisão da Literatura Acerca do Processo de Elaboração do Luto no Sistema Familiar e os Manejos Usados por Psicólogos nesse Contexto. O Portal dos Psicólogos. Documento publicado em 05 de Junho de 2016. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 22 ago. 2019.

SILVA, Rosimere Viana Barbosa da - Os conflitos na Fronteira de Contato entre Pais e Filhos Adolescentes. Revista IGT na Rede, v. 12, nº 22, 2015. p. 53 – 66. Disponível em http://www.igt.psc.br/ojs ISSN: 1807-2526.

SOUSA, Luiza Eridan Elmiro Martins de – O processo de luto na abordagem gestáltica: contato e afastamento, destruição e assimilação. Revista IGT na Rede, v. 13, nº 25, 2016. p. 253 – 272. Disponível em http://www.igt.psc. br/ojs ISSN: 1807- 2526.



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