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Quadros Clínicos Disfuncionais e Gestalt-terapia
Recorte do Livro: Quadros Clínicos Disfuncionais e Gestalt-terapia

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A posição teórica da abordagem gestáltica sobre a ansiedade humana e seus transtornos difere em alguns pontos substanciais do olhar que impera hoje na psicopatologia e em seus manuais — assim como no senso comum -, pois, dados seus pressupostos fenomenológicos e compreensivos, além de sua peculiar visão de ser humano, a Gestalt-terapia pode lançar um olhar amplo e abrangente sobre esse fenômeno.

Com isso, alcança a possibilidade de desenvolver importantes e eficazes recursos terapêuticos para o manejo da ansiedade em suas variadas manifestações e em seus diversos graus de saúde ou patologia.

Esse olhar original da Gestalt-terapia não impede o diálogo com outras abordagens, antes pelo contrário: fomenta a busca da melhor forma de manejar clinicamente um fenômeno cada vez mais comum no dia a dia das pessoas e nos consultórios.

Este artigo é parte dessa busca de um diálogo que propicie aos indivíduos de nosso tempo e de nossa cultura uma vida mais plena e atualizada, com mais e melhores suportes para cuidar da ansiedade que marca esta época de tanta informação e pouco conhecimento, de tanto movimento e tão pouca concentração, de tanta pressa e tão pouca contemplação.


Comecemos pelo que ela não é, ou seja, quando falo de ansiedade aqui não estou me referindo a medo nem a angústia. Acompanho Kurt Goldstein (2000, p. 230, tradução minha) nesse aspecto, para quem o medo aparece quando há um objeto que pode ser removido ou do qual se pode fugir: “Temos consciência de nós mesmos assim como do objeto, podemos deliberar como vamos nos comportar perante ele” .

No caso da ansiedade, como ela não tem exatamente um objeto, mas se caracteriza mais por um vazio ou por uma ameaça vaga à existência, “a única coisa que podemos fazer é uma tentativa de fugir disso sem saber aonde vamos, porque nós a experimentamos como não tendo um lugar particular”.

Depois de afirmar que os estudiosos (da área psi e filósofos) da ansiedade sempre buscam diferenciá-la do medo, Goldstein (2000, p. 231) afirma que “devemos enfatizar que tanto Kierkegaard quanto Heidegger consideravam o medo como medo de algo, ao passo que a ansiedade, na visão deles, lida com a “não existência”; suas descrições indicam que a ansiedade é um estado sem referência a um objeto”.

É preciso levar em conta que a ansiedade pode ser considerada existencial, natural, inerente à vida, saudável, ou disfuncional. O que diferencia uma da outra não é exatamente a ansiedade, mas o suporte para o diálogo com ela, ou seja, a forma como ela é vivida, a coragem com a qual ela é enfrentada.

É nesse sentido que Goldstein (2000, p. 239, tradução minha) afirma que “a pessoa criativa, que se aventura em muitas situações que a expõem a sobressaltos, se verá ainda mais frequentemente em situações de ansiedade que a pessoa comum. Os indivíduos diferem na quantidade de ansiedade que podem tolerar”.

O enfrentamento da ansiedade a cada nova configuração de si e do mundo se dá com base em um autossuporte adequado, reforçado por um continente suporte ambiental, uma vez que ninguém vive sozinho ou independente do outro e do campo.

Para que a criança fique sozinha e bem na escola no primeiro dia de aula, é preciso que ela confie em si e em seus recursos, bem como nos recursos que o ambiente lhe provê para esse enfrentamento — ela confia na família e na escola, ela projeta um futuro melhor se for à escola, ela confia em suas habilidades para enfrentar o novo, o desconhecido; sua existência não está fortemente ameaçada. Ela então vive um estado de excitação, de energização para dar conta da tarefa e ampliar, assim, seu espaço vital. Essa excitação é uma das facetas do que podemos chamar de ansiedade existencial.

Se a pessoa não tem suporte para vivenciar tal excitação, esta pode transformar-se em ansiedade disfuncional, na qual há uma inquietação que não tem sua descarga natural, de modo que ela se torna excessiva e “o equilíbrio organísmico não pode ser restaurado. Impedindo a descarga dessa excitação, o sistema motor do organismo não descansa, mas permanece inquieto” (Perls, 2002, p. 127).

Uma pessoa vive ansiedade quando imagina — ainda que às vezes nem se dê conta disso explicitamente — que pode não ter capacidade ou recursos para manejar determinada situação. Se ela confia plenamente em seu autossuporte e no suporte ambiental do momento, pode correr o risco e crescer, e aí temos a ansiedade existencial. Se ela se retrai em demasia, se evita por um longo período essa responsabilidade inerente ao crescimento e autoatualização, pode entrar num impasse que é característico da ansiedade disfuncional (patológica, para o DSM). Nesse caso, ela em geral age como descreve Perls (1977a, p. 63):

[...] uma pessoa apenas acredita que não dispõe de recursos. Ela apenas impede a si mesma de usar estes recursos conjeturando uma porção de expectativas catastróficas. Ela espera alguma coisa má do futuro. [...] Nós temos todas essas fantasias catastróficas pelas quais nos impedimos de viver, de ser. Estamos continuamente projetando no mundo fantasias ameaçadoras, e estas fantasias nos impedem de assumir riscos razoáveis que são parte e parcela do crescimento e do viver.

Vivemos um tempo propício a ansiedades disfuncionais, uma passagem na cultura ocidental de um modelo egotista de convivência para um modelo profletor de relações. Um momento em que necessitamos descobrir que a identidade não é um eu, mas um eu em relação com um nós, um eu e nós flexível, o outro é muito mais próximo e semelhante do que supúnhamos.

Dizendo de outra forma:

Vivemos uma época que nos abre quase bipolarmente dois caminhos: o da percepção de nossa profunda solidão e de uma identidade cada vez mais fluida e mutável, matriz de intensas ansiedades; e o de uma enorme criatividade que nos possibilita um contato cada vez mais rápido e fácil com pessoas em todas as partes do mundo, matriz de uma rica e potencial solidariedade. Estamos diante de enorme desafio: a necessidade de costurar esses dois caminhos em belos bordados.

Trata-se de algo difícil, pois implica que possamos criar em nosso cotidiano um bom ritmo entre autossuporte e suporte ambiental, ora caminhando com as próprias pernas, ora sendo amorosamente suportivo, ora sendo amorosamente suportado, sempre em consonância com a situação, numa harmoniosa alternância entre solidão e solidariedade.


REFERÊNCIAS:
RECORTE EXTRAÍDO DO LIVRO:
Quadros Clínicos Disfuncionais e Gestalt-terapia -— Lilian Meyer Frazão e Karina Okajima Fukumitsu (Orgs.) Quadros Clínicos Disfuncionais e Gestalt-terapia [recurso eletrônico] / organização Lilian Meyer Frazão, Karina Okajima Fukumitsu. - São Paulo, Summus. 2017, recurso digital (Gestalt-terapia: fundamentos e práticas, 5) Formato: epub - Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions. Modo de acesso: world wide web. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-323-1085-9 (recurso eletrônico) 1 Psicologia. 2 Livros eletrônicos | Frazão, Lilian Meyer IIFukumitsu, Karina Okajima. Ill Série 17-44394 CDD: 150CDU:159.9



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